segunda-feira, 23 de junho de 2008

Jonas em: Íntimos Desconhecidos

Sentado em frente a tv, Jonas devora insandecido um saquinho de pipocas para microondas no sabor bacon. A sintonia da tv está ruim e um incômodo zumbido sai da caixa de sonhos e se confunde com o barulho da noite. Jonas está finalmente só e satisfeito.
Sair da casa dos pais foi uma decisão difícil, mas a situação estava quase insustentável, ainda mais após ter matado à facadas o gato de estimação da mãe. Jonas nunca gostou da cor indefinida dos pêlos do gato. Era um marrom esquisito e isso o incomodava, até que por fim resolveu dar cabo no bichano e acabar com essa angústia que a cor dos pêlos do mesmo lhe inflingiam.
Sozinho em seu novo apartamento, o rapaz sente a liberdade falar baixinho em seu ouvido, mecanicamente estremece, então bate uma punheta, desliga a tv e vai dormir. Ainda não passam das 23:00 e Jonas não costuma dormir tão cedo assim, porém hoje sente-se muito cansado. Está afetado por uma leve dor de cabeça que lhe causa tontura quando faz movimentos mais bruscos.
Em meio a revistas masculinas sujas e velhas jogadas na cama ele se deita. Nas paredes ao redor, pôsteres de suas bandas favoritas, flâmulas de seu time de futebol favorito e fotos das modelos nuas que lhe proporcionaram sublimes momentos de autosatisfação no banheiro.
Ao deitar-se as imagens todas se embaralham, as modelos, os cabeludos rockeiros e os jogadores se confundem numa massa disforme, colorida e horripilante. Jonas dá um tapa no interruptor ao lado da cama e as luzes se apagam.
Os tic taques do despertador incomodam Jonas. Ele vira de um lado para o outro na cama suando frio, e cada vez mais suas dores de cabeça aumentam. A noite prometia ser longa e incômoda.
Quando estava prestes a pegar no sono, um barulho estrondoso vindo da sala o assustou. Rapidamente Jonas se levanta mesmo ainda zonzo, e vai verificar com receio o que se passa.
Na sala a tv está ligada, mas não sintoniza canal algum. Ele se lembra de ter desligado a tv e ela não poderia ter se ligado sozinha. Haveria mais alguém no apartamento?
A noite cada vez mais adquire contornos de mistério. Tudo está estranho, algo não está certo. Jonas sente náuseas e caminha até o banheiro. Depois de vomitar todo o pacote de pipocas para microondas sabor bacon, põem-se a examinar sua própria imagem no espelho.
A noite está estranha, o espelho está estranho. Sua imagem refletida não mais se parece com ele mesmo. Na verdade não há dúvidas de que aquele corpo branco e esquelético é o seu, que aquela fisionomia e aqueles cabelos são seus. Mas há algo que não confere. Ele não se reconhece, não se sente íntimo da figura refletida no espelho. É como se fosse um estranho a observá-lo fixamente e isso lhe é angustiante.
Então de repente Jonas pisca, mas sua imagem não. Ele se move , mas sua imagem não. Apavorado, recua lentamente em direção a porta, mas sua imagem permanece estática, em pé olhando pra ele de dentro do espelho - Jonas precisa de uma dose.
Já na cozinha abre a geladeira e apanha sua última garrafa de vinho ainda intocada. É um Natal vagabundo, mas pouco importa a bebida quando o que se quer realmente é embebedar-se. Ele mata o vinho em pouquíssimos minutos.
Um pouco mais calmo, meio que tentando encontrar lógica nas coisas, Jonas retoma a coragem e se levanta. Com passos lentos caminha até o banheiro, queria certificar-se que tudo não passara de ilusão.
Finalmente, ao entrar no banheiro, acontece o inesperado: Jonas vê a sí próprio sentado na privada cagando.
Não, não era ilusão de ótica. Era como se seu reflexo no espelho estivesse com desinteria e resolve-se ir a privada dar uma rápida cagada.
Jonas admira perplexo a cena. A princípio se enoja, depois acostuma-se, mas pensa consigo mesmo que é muito estranho ver um corpo idêntico ao seu fazendo suas necessidades fisiológicas.
Mas ainda assim algo não confere. O corpo é o seu, a fisionomia, o cheiro da merda é o mesmo cheiro de sua merda e até a expressão, solitária e aliviada do momento da evacuação é a mesma, mas Jonas não se reconhece. O medo toma conta do rapaz. Milhões de idéias loucas passam pela sua cabeça mas nenhuma delas lhe aponta a solução para aquele problema.
Ele se desespera, vai até o quarto e apanha sua garrucha velha, usada pra matar passarinhos e assustar os filhos dos vizinhos. Invade o banheiro e em tom desafiador indaga à seu intimo desconhecido:
- Quem é você, porra? - nem sinal de resposta.
- Quem é você seu porra e o que faz aqui cagando no meu banheiro? - insiste.
Seu reflexo toma um ar sombrio e fixamente olhando nos olhos de seu interpelador diz:
- Quem sou eu? Não sabes quem sou?
- Não, não sei. - responde Jonas medroso.
Seu eu, com a voz firme e decidida, aproxima-se de Jonas e manda essa:
- Conheça-te a tí mesmo! Conheça te a ti mesmo!
Depois destas sábias, porém não muito originais palavras, o alter ego de Jonas termina de limpar a bunda, dá a descarga e sai do banheiro perdendo-se na escuridão dos outros cômodos do apartamento. Jonas ainda tem tempo de ouvir a porta da sala se fechando e os passos de sí mesmo correndo pelo corredor antes de sentar-se na privada e cagar também.
Este curioso caso nunca foi esclarecido e depois daquele dia, Jonas nunca mais reencontrou a sí mesmo.

1 comentários:

lola disse...

Obrigada pela dica. Gostei muito da tensao que voce cria e nos surpreende com a imagem bizarra de Jonas cagando.